O paradoxo dos Mercados Eficientes

André Lorenzo Bittencourt

Um matemático, um engenheiro e um físico estão num bar e veem uma bela mulher do outro lado do salão. Nenhum deles tem coragem de ir falar com ela, então o físico tem uma ideia para criarem coragem. Eles andam metade do caminho até ela, depois mais metade do caminho que falta e assim por diante.

O matemático fica indignado, “que plano horrível, nós nunca vamos chegar até ela assim”. O engenheiro responde animado, “vamos chegar perto o suficiente para todos os efeitos práticos.¹

Uma breve historinha para introduzir um dos temas de debate mais comuns entre os participantes do mercado financeiro: os mercados são eficientes ou não?

Boa parte do mercado está alicerçada na hipótese de que os fundos não são eficientes, como os fundos de ativos, casas de research, plataformas de dados e traders. O trabalho desses players é tentar encontrar e lucrar em cima  das ineficiências do mercado, com informações que não foram descontadas nos preços ou comportamentos irracionais dos outros investidores.

Outra parte crescente do mercado sai da hipótese de que os mercados são eficientes, como os provedores de ETFs. Para eles o mercado é eficiente e não há nada a ser ganho tentando encontrar ineficiências.

A questão, realmente, não é binária (é ou não é), mas o quanto os mercados são eficientes. Responder essa pergunta não é trivial, se é que é possível respondê-la, mas uma coisa sabemos (sob certas premissas razoáveis):

É impossível os mercados serem completamente eficientes.

No artigo “On the Impossibility of Informationally Efficient Markets”, os economistas Sanford Grossman, da Universidade da Pennsylvania, e Joseph Stiglitz, de Princeton, demonstraram o que ficou conhecido como o Paradoxo Grossman-Stiglitz.

A ideia básica é que todas as informações existentes e possíveis de serem descobertas não podem estar descontadas nos preços, segundo a dupla, porque obter as informações custam dinheiro.

A espiral da eficiência

A ideia fica mais clara com um exemplo. Imagine um mercado novo, onde nenhum investidor possui nenhuma informação sobre os ativos e todos simplesmente aceitam o preço de mercado dos ativos quando querem comprar ou vender (e negociam apenas para investir o dinheiro parado ou para obter dinheiro para o consumo).

Podemos assumir que esse mercado vai ser bem ineficiente. Um dia, um investidor esperto percebe que se ele parar para fazer algumas contas, ele consegue encontrar ativos que estão muito baratos (que ele corre para comprar) e outros muito caros (que também corre para vender). Os trades desse investidor puxam um pouquinho os preços em direção ao preço justo.

Os colegas desse investidor, vendo ele ganhar dinheiro com suas análises resolvem fazer o mesmo, todos puxando os preços um pouquinho mais em direção à eficiência.

Logo, mais investidores querem participar da brincadeira, mas agora já não é tão fácil encontrar oportunidades. Uma pessoa começa a pagar por fontes de informações melhores, outro contrata uma equipe de pessoas para se debruçar sobre os ativos, um terceiro investe para estar mais perto de onde ocorrem as operações, em comum, todos ajudam o mercado a ficar mais eficiente, mais difícil de se bater e mais custoso de se encontrar alguma informação nova. Logo isso vira uma corrida armamentista com as melhores mentes e ferramentas brigando por obter alguma vantagem.

Até que algo estranho acontece. Com um mercado com poucas oportunidades o lucro de muitos dos participantes não é suficiente para cobrir seus custos financeiros e de oportunidade (poderiam estar ganhando dinheiro fora do mercado), muitos desistem de operar e o mercado fica menos eficiente.

No equilíbrio, o mercado vai sempre estar a alguma distância da total eficiência, proporcional ao custo de se obter as informações. Os players capazes de obter as melhores informações a menor custo vão continuar lucrando, enquanto os menos eficientes vão sendo eliminados até que o mercado encontre o equilíbrio entre eficiência e custo de informação.

O efeito colateral dessa corrida armamentista, demonstrado por Grossman e Stiglitz, é que os mercados se tornam mais eficientes e os spreads entre o preço de compra e venda se tornam menores. Curiosamente, o investidor sem informação é um dos maiores beneficiários. Os traders, além de gerarem lucros para si mesmo, aumentam a utilidade do mercado como um todo. O trabalho da dupla também ajuda a explicar porque mercados desenvolvidos como EUA e Europa, com tantos players ativos, ainda são extremamente atrativos.

O artigo tem uma matemática intensa (mas não particularmente difícil), concentrando-se em provas e premissas, teoria econômica, entre outros pontos. A primeira vista pode não fazer sentido toda essa matemática e trabalho para algo que, para alguns, pode ser intuitivo. Mas, esse é o trabalho da pesquisa e formalidade utilizada nas finanças quantitativas, demonstrar de forma precisa como as coisas funcionam, sob quais premissas e em que situações elas não funcionam, sem espaço para erros de intuição aos vieses.

Este artigo apresenta a visão pessoal do autor e não representa necessariamente a visão de qualquer instituição ou empresa ligada a ele. Os melhores esforços foram feitos para trazer informações acuradas, mas erros e má interpretações podem ocorrer. Essa peça não constitui recomendação ou indicação de investimento.