Risco ocorre quando as probabilidades de eventos futuros podem ser estimadas. Incerteza ocorre quando a quantidade de eventos futuros é desconhecida e, portanto, as probabilidades não podem ser estimadas. Como tomar decisões em situações de risco e incerteza?
Aversão à incerteza
Considere a seguinte situação: Há duas caixas, cada uma contendo 100 bolas, entre brancas e pretas. Na caixa A sabemos que a divisão é igual, 50 bolas brancas e 50 bolas pretas. Na caixa B, porém, a quantidade exata de cada cor é desconhecida. Você é submetido a uma aposta:
1) Receba R$1.000 se uma bola branca for retirada da caixa A, e R$ 0 se uma bola preta for retirada.
2) Receba R$ 1.500 se uma bola branca for retirada da caixa B, e R$ 0 se uma bola preta for retirada.
Em qual você apostaria? Se escolheu 1 você é um indivíduo avesso à incerteza!
Este é o paradoxo de Ellsberg, onde o indivíduo toma decisões com base na aversão à incerteza ao invés de considerar a utilidade esperada. Em 1 temos uma situação de risco, onde a probabilidade de retirar uma bola branca é conhecida. Em 2 há uma situação de incerteza e, mesmo se houver mais bolas brancas na caixa B, não há como saber a probabilidade de uma bola branca ser retirada. As pessoas são avessas à incerteza e por isso preferem situações de risco.
Risco e seguros
Andar de carro é uma atividade arriscada. Acidentes podem acontecer, resultando em ferimentos e até óbito. No entanto, na grande maioria das vezes, dirigimos sem incidentes até o nosso destino, e por isso estamos dispostos a assumir o risco de andar de carro.
Quando andamos de carro há alguns eventos possíveis. Podemos chegar ao nosso destino ou não. Se não chegarmos ao destino isso pode ocorrer por falhas mecânicas no carro ou por causa de um acidente.
A chance aproximada de um indivíduo morrer em um acidente de carro nos EUA é de aproximadamente 1 em 47.852. A chance de morrer num acidente de carro durante o período de vida de uma pessoa é de aproximadamente 1 em 608.
Andar de carro é um exemplo de atividade que envolve risco porque sabemos os possíveis eventos que podem ocorrer e podemos estimar a probabilidade de cada um deles.
Dado que a chance de eventos que têm risco pode ser estimada, podemos nos proteger contra eventos adversos adquirindo seguros, como seguro de automóvel e seguro de vida. Um seguro oferece a possibilidade de que sejamos compensados na ocorrência de um evento previsto e segurado, como um acidente de carro.
Empresas que negociam seguros possuem áreas de atuação que estimam as probabilidades de ocorrência de eventos específicos. Embora não se saiba qual cliente segurado sofrerá algum acidente, ao vender seguros para uma quantidade suficientemente grande de indivíduos, as empresas podem estimar quantos acidentes ocorrerão em um determinado ano e o custo para reparar os danos. Empresas vendedoras de seguros cobram um prêmio suficientemente elevado de seus clientes para garantir que a receita agregada seja suficiente para pagar pelos danos segurados e possibilitar que a empresa tenha lucro.
Definindo incerteza
Algo é incerto se não sabemos o que pode acontecer ou não sabemos como estimar as probabilidades do que pode acontecer. Incertezas são eventos sem limites definidos e com muitas possibilidades. Riscos possuem um escopo limitado de probabilidades que podem ser estimadas. É possível adquirir seguros contra riscos, porém não contra incertezas.
| Risco | Incerteza |
| Número limitado de possibilidades | Grande número de possibilidades |
| Probabilidades podem ser estimadas | Probabilidades não podem ser estimadas |
| Pode-se comprar seguro (hedge) | Não é possível comprar seguro |
Tomando decisões sob risco
Devemos ter abordagens diferentes ao lidar com situações que envolvem risco ou situações que envolvam incerteza. Vamos abordar primeiro como tomar decisões sob risco. Considere o seguinte processo em três passos para gerenciar risco:
1. Decidir qual o resultado desejado.
2. Determinar se há uma opção sem risco ou com riscos negligíveis para obter o resultado desejado.
3. Se não houver uma opção sem risco ou com riscos negligíveis, decidir quanto risco correr para obter o resultado desejado. É necessário estimar as probabilidades de sucesso e falha.
Esse processo pode ser aplicado em finanças. Por exemplo, se quisermos poupar para dar entrada em um imóvel, temos que decidir como investir o dinheiro poupado.
Podemos investir o dinheiro em uma classe de ativos com grande risco como ações, ou em uma classe de ativos com baixo risco como títulos públicos de curto prazo (CDI). Ações são mais arriscadas que o CDI porque oferecem maior escopo de possíveis resultados e uma probabilidade maior de registrar perdas. Investindo no CDI implica em maior probabilidade de que iremos atingir o valor desejado em um determinado prazo porque o range de retornos potenciais para o CDI é limitado. CDI é uma opção de baixo risco.
Investindo em ações temos a possibilidade de atingir o valor desejado mais rápido se as ações tiverem boa performance. No entanto, as ações podem ter significantes declínios de preço depois de vários anos de aplicação, impossibilitando atingir o valor desejado no período determinado.
É possível calcular a chance de atingir o valor desejado investindo em ações versus CDI porque há muitos anos de retornos históricos que permitem estimar as probabilidades.
A habilidade de calcular a probabilidade dos vários eventos possíveis permite fazer escolhas informadas a respeito do risco. O mesmo não se aplica a situações de incerteza.
Tomando decisões sob incerteza
Nos anos 1950, o economista Jimmy Savage apresentou um processo para tomar decisões sob incerteza chamado “minimax regret”. O princípio é minimizar o máximo arrependimento.
Arrependimento é um conceito subjetivo. Gerenciar arrependimento não é o mesmo que gerenciar o risco de perdas como no exemplo acima, onde poderíamos estimar a probabilidade de perder dinheiro investindo em ações ou no CDI.
A pandemia do COVID é um exemplo de tomada de decisões sob incerteza. Quando a pandemia começou, não se sabia qual a probabilidade de ficar doente, e ficando doente não se sabia a chance de óbito, pois não havia dados suficientes para estimar tais probabilidades. Não sabíamos também quem estava infectado e nem mesmo como poderíamos ser infectados.
A situação era altamente incerta. Nesses casos a decisão que minimizou o máximo arrependimento foi ficar em casa o maior tempo possível, sem contato com outras pessoas, até que se tivesse maiores informações. Minimizar arrependimento não é um problema de otimização. É um mecanismo comportamental para lidar com a incerteza.
Confundindo risco com incerteza
Um exemplo que ressalta a importância de se distinguir risco de incerteza envolve a aprovação de uma nova e potencialmente fatal substância química para uso como agrotóxico.
Reguladores podem aprovar a substância se utilizarem um processo baseado em risco e insistirem em atribuir probabilidades para as diversas possibilidades. Nesse caso podem estimar uma baixa probabilidade de danos e decidir que os benefícios superam os riscos.
Se, porém, os reguladores utilizarem o processo de minimizar o máximo arrependimento, podem proibir ou limitar severamente a utilização da substância até que haja evidências suficientes sobre os possíveis efeitos da mesma, ou seja, até que haja dados suficientes para se estimar probabilidades. O potencial arrependimento devido à perda de vidas é muito grande.
Identificar para tomar melhores decisões
Sempre que precisamos tomar uma decisão, devemos primeiro identificar se estamos lidando com risco ou incerteza.
Se for possível identificar os possíveis resultados e estimar a probabilidade de cada resultado, então é uma situação de risco. Daí podemos decidir qual o nível de risco toleramos e tomar decisões para minimizar o risco.
Se os potenciais resultados são desconhecidos, assim como suas probabilidades, então devemos tomar decisões subjetivas que minimizem o potencial de ruína. Nessas situações tomamos decisões preventivas para evitar danos e procuramos opções que provavelmente causem menos danos.
Saber a diferença entre risco e incerteza nos ajuda a tomar melhores decisões.
